A senhora Europa é já cinquentona, confirma o registo da conservatória. Com 27 filhos, todos eles adoptados, vai gerindo esta família insólita, mas de certo prestígio nas redondezas. Rua acima e rua abaixo, os vizinhos às vezes desdizem, mas os olhares cobiçam o quintal, apreciam o savoir-faire, o savoir-vivre. Muitos ovos põem estas galinhas.
A senhora Europa sempre foi afável, solidária, quiçá pela culpa de desacertos passados. O que não significa que se disponha a acolher todo e qualquer um que lhe peça guarida. Há critérios de disciplina a seguir para bem da convergência familiar, sob pena de bater, bater, e ficar à porta. Quem quer entrar, tem de dar garantias: pensar no bem comum e comungar os princípios basilares da família. Que isto da solidariedade é receber, mas também é dar na exacta medida das possibilidades. Que fique claro.
Na sua estratégia de adopção, a senhora Europa chegou ao Oeste, a Norte e a Sul. Nestas zonas, os mares e oceanos do continente puseram-lhe travão. A Leste, não há consenso, mas costuma dizer-se que não vai além dos Montes Urais. Aos países caucasianos – como a Geórgia, o Azerbeijão, a Arménia – , ainda não decidiu se irá ou não, mas há por aqui quem queira integrar a família e assinar o apelido. Um processo nem sempre fácil ou imediato… a Turquia também vai ter de esperar. A senhora Europa pondera, ao revisar os anais burocráticos da História.
Cada vez com mais tarefas a cumprir, a dama anafada fez-se grande em meio século, cada vez maior. Nos últimos anos ficou imensa – as pessoas cochicham. Os filhos, sobretudo, queixam-se de que a moradia não estica sem limites para a comportar, e que também por isso é preciso respirar bem fundo antes de negociar novas adopções. O espaço mingua, a casa precisa de obras. Mesmo porque, nos últimos dois anos, a paz, os bolsos cheios e o bom comportamento dos candidatos permitiram-lhe ambição: mais doze membros viram o passaporte carimbado.
Não tardou a evidência de que gerir uma casa a 27 é mais conturbado do que uma com 15 inquilinos. Uma obra bicuda, esta de conseguir a ordem e o consenso com tantas cabeças e tantas sentenças. Uns batem o pé, recusam-se a contribuir mais, quando os irmãos pedem aumento de semanada; se uns advogam mais independência, outros defendem a união familiar; uns alvitram a justiça social, outros vociferam que a liberdade de mercado garante essa justiça. Babel de interesses.
Para dirimir as hostes, a senhora Europa decidiu reestruturar a vivenda, unir a família, aprofundar laços antes de alargá-la mais. Marcou reuniões para esboçar uma planta e escolher tons para paredes. Alcançou-se um acordo, mas alguns filhos rejeitaram-no em seguida, e o processo congelou. A euforia inicial diluiu-se na amálgama das vontades.
Cabisbaixa, com uma crise de confiança, a senhora Europa mergulhou no existencialismo escatológico. Qual ninfa, tem por hábito refastelar-se num divã escarlate sueco, a tragar um Tawny ou um malte escocês, ouvindo a “Ode à Alegria” para lhe estimular os humores. Recentemente, rendeu-se às maravilhas do iogurte búlgaro, que adocica com chocolate belga – stracciatella reinventado. Num destes devaneios de divã, sonhou a bizarria de um mundo às avessas, em que os filhos se fechavam no quarto, se enrolavam em quezílias de pertença e de espaço. Qualquer faúlha acendia a discórdia, tal a irresponsabilidade de estratégias unilaterais, tal o regabofe de egoísmo. Os megafones da desunião soaram agudos, interrompendo o sono. Fez-se luz sob o abat-jour.
“O que une esta família, perguntam-me, com insistência…”, começou a matriarca, convocando os filhos à lareira apagada. “Antes de mais, o que nos une é algo mais humano do que físico. Que critérios considero para a adopção? A resposta procuramo-la nos mapas, na História, mas as fronteiras são desenhos humanos e a própria História escreve-se pela mudança. Os povos entrecruzam-se, a miscigenação é o curso regular. Talvez tenhamos começado num outro pé, mas o que nos une hoje, acima de tudo, são os valores e as metas: desejo da paz, liberdade, bem-estar, democracia, prosperidade, solidariedade, pensamento crítico, respeito pela alteridade. Esta união parte de uma confiança em que as diversidades co-existem, sem receios. Assumimos uma identidade heteróclita, sem abdicar da individualidade. Se o não percebem, escapa-vos o que é a identidade europeia, como projecto cultural e socialmente progressivo. Escapa-vos o que significa e o que implica pertencer a esta família. Se mais não for, em vez de apontarmos o que nos separa, não deve unir-nos a vontade de conhecer o que nos une ?”
Não há resposta, nem dos absolutamente convencidos, nem dos evidentemente baralhados. A pergunta paira no ar. Ao fundo da sala, junto à janela, um zunzum indiferente sobe de tom: de indicador em riste, debate-se a cor das estrelas, se brancas, alaranjadas, prateadas.
Cristina Silva Bastos